• Leonor Madeira

QUANDO A QUARENTENA PODERIA SER A MELHOR DESCULPA PARA DESTRUIR RESOLUÇÕES DE ANO NOVO...

Atualizado: Fev 2


... SÓ QUE NÃO!


I. Resoluções de Ano Novo

Depois de segunda feira, o dia 1 de Janeiro é a data preferida para iniciar projetos de mudança de vida. O ano novo enche-se das melhores intenções e o filme repete-se:

  1. Ou vai ou racha! - aqueles que querem mudar tudo ao mesmo tempo: deixar de fumar, emagrecer, fazer dieta e treinar todos os dias, comprar uma bicicleta para uma voltinha aos Sábados e uma prancha, fato e aulas de surf para os Domingos…

  2. Alguém que resolva o meu problema! - aqueles que atiram para cima de um instrutor ou treinador, ginásio ou frasco de comprimidos a responsabilidade de os motivar e transformar no sonho de pessoa que querem ser.

  3. Acabou-se! Nunca mais na vida! - aqueles que, enjoados de uma época de descalabro gastronómico e enclausura, mergulham em restrições calóricas drásticas e querem treinar como acham que treina um atleta.

  4. Logo agora que finalmente reunia as condições necessárias para começar! - aqueles que responsabilizam “a vida” de lhes estar constantemente a montar armadilhas e obstáculos para que “não lhes seja possível” serem mais saudáveis.

E podíamos ficar aqui o resto da vida a enumerar situações típicas de resoluções de ano novo…



II. Fitness v/s CrossFit


Perita na manipulação deste tipo de presas tão frágeis, a “indústria do fitness” conhece melhor do que ninguém estes comportamentos típicos do consumidor sedentário com maus hábitos alimentares. Promete mundos e fundos: “perca a barriga em 30 dias”, “em duas semanas, tenha o corpo com que sempre sonhou” ou “gaste calorias sem ter que se mexer”, enquanto bombardeia o mercado de ideais estéticos irreais.


Mas há programas radicalmente opostos, treinadores responsáveis e bem preparados para desmontar todas estas artimanhas. Apesar de nem todos os “consumidores” estarem dispostos a encarar evidências, existe uma pequena percentagem da população que não se deixa enganar nem iludir. São os alunos que connosco treinam nestes espaços a que chamamos de Boxes:

A. Não temos paredes cobertas de espelhos porque a imagem e o corpo são a consequência e não a razão para treinar. E sim, as Boxes estão cheias de pessoas lindíssimas…

B. Brutalmente honesto - não há corta-matos. Sem esforço não se atingem resultados;


C. Com aulas para pequenos grupos onde cada movimento e cada treino é devidamente personalizado: adaptado e adequado à especificidade de cada aluno;

D. Recorremos a todo o tipo de protocolos, recrutando diferentes sistemas energéticos e mantendo uma enorme variedade de movimentos e tipos de treino. Por outras palavras, fugimos de rotinas e do mais do mesmo;

E. O imprevisto e o desconhecido é abraçado pelos praticantes da forma mais entusiasta possível. E foi impressionante como a pandemia de 2020-21 mostrou a capacidade de adaptação dos nossos alunos. Habituados a enfrentar seja o que for, facilmente seguiram as orientações dos seus treinadores. Apoiaram-se uns aos outros dentro da sua comunidade e, conscientes do que se trata, fazem o que for preciso para proteger as populações de risco;


F. A educação é central numa Box de CrossFit. Trabalhamos com os nossos alunos para que sejam autónomos e não dependam do PT ou do treinador para se manterem ativos. Queremos que os nossos alunos queiram estar e aprender connosco e não que tenham que estar connosco;



G. O peso corporal é uma referência para o treino e as calorias para distância ou tempo e não um objetivo por si só. Num praticante regular de atividade física, um corpo pesado não é um corpo gordo, antes pelo contrário…


H. O praticante de CrossFit tem hábitos alimentares que implicam conhecimentos nutricionais muito acima da média. Têm rotinas alimentares das quais raramente se desviam. Gozam as festas gastronómicas como exceções à regra, sentem-se fisicamente mal porque açúcares e comidas processadas já não caem bem e por isso é sem sacrifício que rapidamente regressam aos hábitos saudáveis do costume;


I. Numa Box de CrossFit nascem comunidades fortíssimas. Pessoas que se preocupam umas com as outras e que facilmente se tornam na família escolhida. É muito comum haver famílias de sangue completas a treinar Crossfit. Começa um e segue—se o cônjuge, irmãos e irmãs, primos, tios, avós, filhos…



III. Working 4 Individual Goals While Work as a Team

Todos temos objetivos pessoais na vida e, uns mais do que outros, o talento para os atingir. Não é difícil encontrar quem deseje os mesmos resultados que nós. Já não é tão comum descobrir quem os consegue perseguir. Mas ainda mais raro é quem os atinge mesmo.

Uma aula de grupo numa Box é um bom exemplo da influência que uns têm nos outros. Há quem precise perder massa gorda, outros precisam de ser mais fortes, outros querem conseguir fazer o pino, outros gostavam tanto de dominar o trabalho nas argolas ou os levantamentos olímpicos.


O entusiasmo com que todos festejam as conquistas de outro é a melhor ilustração de uma realidade evidente: que cada um chega lá porque conta com a ajuda de muitos outros. A começar pelos seus treinadores, passando pelos seus parceiros de treino e tantas vezes terminando na admiração e respeito que conquistam junto de familiares, amigos, vizinhos, colegas, etc..



IV. Movement Education


O movement na IronBox surge como a estratégia que encontrei para colmatar uma realidade posta a descoberta nos primeiros anos de CrossFit: uma grande parte das pessoas que nos procurava chegava já com limitações graves ao nível do mais básico que pode haver num ser humano: não agachar, não se equilibrar, não se orientar no espaço, não se pendurar, etc..


E isto criou problemas porque não podemos exigir intensidade quando a capacidade mecânica não está sequer disponível. Como dizemos tantas vezes aos nossos alunos, primeiro temos que reunirmos todas as capacidades que nos permitem executar um movimento. Só depois é que podemos trabalhar a sua consistência. E a Intensidade é a sempre a última parcela da equação.


Há alguns anos que seguia o trabalho do Ido Portal. A sua abordagem antropológica ao movimento e um enquadramento ecológico de diferentes vertentes do comportamento humano foram aspetos que me atraíram logo. E por isso, mergulhada neste “dilema técnico” e até ético, em 2015 resolvi pedir-lhes ajuda e enviei um e-mail a perguntar se estariam interessados em vir a Portugal. A resposta foi rápida, positiva e entusiasta.


Na sua primeira vinda a Lisboa percebi que o Ido já “estava de olho” no nosso país há algum tempo. Até porque fala bem a nossa língua que aprendeu no Brasil onde passou algum tempo da sua vida, atrás de mestres de capoeira e de Jiu-Jitsu.


O primeiro evento cá na Box foi o Movement X. E foi também a entrada num mundo novo. Um grupo de apenas 48 pessoas, vindas dos mais variados cantos do Mundo (muito poucos portugueses), passaram dois dias a “conversar” numa linguagem comum e até universal: o movement.


E pronto. Mergulhar na abordagem do Ido - o movement culture - é reorganizar um mundo interior e encontrar uma infinidade de ferramentas para trabalhar. O corpo assume o seu lugar na nossa vida. É o nosso principal veículo de comunicação com o mundo, com os outros e connosco próprios. E basicamente é isso que temos que recuperar em todos aqueles que nos aparecem completamente mudos…


Desde então para cá que na IronBox desenvolvemos uma cultura onde a aprendizagem, o ensino, o processo, a reflexão fazem parte da construção de vidas mais saudáveis. Colunas vertebrais que não “mexiam”, ombros rígidos, bacias silenciosas e por aí fora, vão ganhando capacidades expressivas: amplitudes, cadências, ritmos e conexões com outras partes do corpo com quem não dialogavam provavelmente desde crianças…


Na IronBox somos esta procura constante de ser e de estar melhor. É um interesse insaciável que nos faz ir sistematicamente atrás de práticas que nos permitam em boa consciência responder a uma pergunta tão simples quanto esta: estamos a dar aos nossos alunos o melhor que há, que temos e que podemos? E a resposta nunca é definitiva: há sempre margem para sermos melhores.



V. “Ninguém pára!”


A Quarentena 2020 e o recente LockDown de 2021 são dois bons exemplos de uma capacidade de adaptação saudável às condições em que vivemos. Tornar a vida mais simples do que complicada, sermos mais ativos do que inativos, mais saudáveis do que doentes, resulta sobretudo da capacidade de tomada de decisão de cada um.


As restrições em que todos mergulhámos só tornou ainda mais evidentes capacidades que já não eram novidade entre nós: (i) por parte da gestão da Box a reorganização e orientação dos seus profissionais para que em poucos dias todas as atividades estivessem disponíveis e dinamizadas na nossa plataforma digital; (ii) por parte dos alunos, a forma descomplicada e pronta com que abraçaram imediatamente todas as propostas que lhes foram sendo dadas, temperando-as de uma alegria que só é possível quando “estamos bem”.


Se sermos ativos é uma opção, parar porque estamos enfiados em casa também o é.


Leonor Madeira Head Coach | Iron Box

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